Mais de um milhão de portugueses, maioritariamente mulheres, sofrem de alguma doença da tiróide. Quando uma mulher tem tiroidite de Hashimoto com hipotiroidismo e fica grávida é fundamental corrigir o défice das hormonas tiroideias para que não surjam alterações no desenvolvimento físico, neurológico e cognitivo do filho. Se a mãe sofre de hipertiroidismo por doença de Graves durante a gravidez o tratamento também deverá ser o adequado embora persista sempre uma pequena possibilidade do seu filho nascer com a mesma doença. Uma em cada 4 mil crianças pode nascer com hipotiroidismo congénito, mesmo que as suas mães não tenham qualquer transtorno na tiróide.
Dado que a disfunção tiroideia no recém-nascido, se não diagnosticada e tratada precocemente pode pôr em causa o desenvolvimento saudável da criança, entrevistámos a Dr.ª Maria João Oliveira, Endocrinologista, coordenadora do Grupo de Estudo da Tiróide, da SPEDM para conhecer um pouco mais este tipo de disfunção.
O que é o hipotiroidismo congénito?
O hipotiroidismo congénito consiste num défice de hormonas tiroideias que se manifesta pela primeira vez na altura do nascimento. Resulta habitualmente num defeito na síntese hormonal pela glândula tiroideia. Entre vários sinais, pode manifestar-se pela pele seca e fria, macroglossia, edemas, letargia, choro rouco, obstipação, dificuldade na amamentação, atraso no desenvolvimento, atraso no encerramento das fontanelas, alterações neurológicas, ou então pode passar despercebido nos primeiros meses de vida.
Pensamos que em Portugal todos os recém-nascidos são obrigados a fazer o Teste do Pezinho. Sendo assim, este transtorno será detectado precocemente. Ao iniciarem de imediato o tratamento, podem os pais aspirar a uma cura efectiva?
Em Portugal, assim como noutros países desenvolvidos, o teste do Pezinho realizado habitualmente entre os 4 e os 6 dias de vida, permite o diagnóstico precoce de algumas doenças, entre elas o hipotiroidismo.
Quanto mais precoce for o início do tratamento com hormona tiroideia (T4 - levotiroxina) maior é a probabilidade de não existirem manifestações clínicas, nomeadamente alterações neurológicas e atraso mental. Por esta razão, o tratamento deve ser prescrito nos primeiros dias de vida e a partir daí a criança deve fazer controlo analítico periódico para ajuste da dose necessária de levotiroxina. Apesar da criança não chegar a apresentar manifestações de hipotiroidismo, a terapêutica com levotiroxina é habitualmente crónica, para toda a vida. Contudo, se o início do hipotiroidismo se deu cedo na gestação, podem persistir alguns défices intelectuais nomeadamente problemas na aprendizagem e menor QI, mesmo com terapêutica adequada.
O hipotiroidismo congénito ocorre com maior prevalência nas meninas do que nos meninos. Existe algum factor para que a percentagem feminina seja mais elevada?
Possivelmente por questões hormonais as doenças da tiróide são mais frequentes no sexo feminino.
Mesmo antes dos resultados do Teste do Pezinho é possível o neonatologista, na primeira revisão ao recém-nascido, verificar sintomas que lhe permitam diagnosticar o hipotiroidismo congénito?
Conforme já dito anteriormente o hipotiroidismo congénito pode passar despercebido, daí a importância do teste de rastreio. Se o hipotiroidismo for mais grave, o recém-nascido pode apresentar uma fácies característica com nariz chato, macroglossia, micrognatia, cabelo abundante, que pode levar a suspeitar de um hipotiroidismo congénito. O choro é habitualmente rouco e o exame neurológico não é normal com hipotonia, espasticidade, hiperreflexia e movimentos descoordenados, entre outros sinais.
É possível detectar a disfunção da tiroideia fetal?
Nalguns casos específicos, principalmente quando existe doença tiroideia na mãe, pode suspeitar-se de disfunção da tiróide fetal se se verificarem alterações no crescimento do feto, sinais de falência cardíaca, hydrops ou bócio fetal. O doseamento das hormonas tiroideias no cordão umbilical apenas se faz em casos de dúvida extrema e em que seja necessário iniciar alguma terapêutica, pelos riscos que acarreta para o feto.
Existe alguma terapêutica para o feto?
Em caso de hipotiroidismo fetal é possível administrar hormona tiroideia à mãe pois esta atravessa a placenta. Assim como na situação oposta, no hipertiroidismo fetal (habitualmente secundário a hipertiroidismo materno por Doença de Graves), é possível tratar com a toma de anti-tiroideus pela mãe pois estes também atravessam a placenta.
Pode o hipotiroidismo neonatal ser transitório?
Por imaturidade no eixo hipófise-tiróide ou por tratamento excessivo da mãe com anti-tiroideus durante a gestação, o recém-nascido pode passar por uma situação transitória de hipotiroidismo. Por vezes há apenas uma menor concentração sérica de T4, uma das hormonas da tiróide, limitada no tempo que não exige tratamento.
A hipotiroxinemia da prematuridade é a disfunção tiroideia mais frequente em recém-nascidos prematuros. Quais as causas e quais os índices de sucesso com uma terapia adequada?
Todos os recém-nascidos com menos de 30 semanas de gestação apresentam uma falta de maturação do eixo hipotálamo-hipófise-tiróide. A tiróide não é estimulada convenientemente para funcionar e surge um hipotiroidismo primário que pode persistir nos primeiros meses de vida exigindo tratamento durante algum tempo. Geralmente, há recuperação total do eixo e é possível parar o tratamento.
Pode o atraso de crescimento intra-uterino ser um sintoma de anomalias tiroideias?
Conforme já referido acima, o atraso no desenvolvimento fetal pode ser um sinal de disfunção tiroideia.
Qual a importância de um maior aporte de iodo na mulher grávida?
O Iodo é uma das matérias-primas para a síntese de hormonas tiroideias. A tiróide fetal e o sistema que normalmente regula a sua função só funcionam em pleno a partir das 20 semanas de gestação. Até lá, o feto depende exclusivamente das hormonas tiroideias maternas. Durante a gravidez, as necessidades de iodo aumentam. Isto porque na gravidez é exigido um esforço acrescido à glândula tiroideia e há um aumento das perdas de iodo pela urina e pela passagem através da placenta para o feto, com eventual risco de carência do iodo necessário para a produção das hormonas tiroideias maternas. Como tal, estima-se que as necessidades de iodo para uma grávida sejam cerca de 25% superiores às da população em geral ou seja, 200g/dia.
Se este aporte for adequado não haverá dificuldade na adaptação a esta nova fase. Se não o for haverá consequências para a mãe (aumento do volume da tiróide) e para o feto (alterações das funções intelectuais).
Um estudo recente realizado no nosso país demonstrou uma carência de iodo importante na população grávida, pelo que a suplementação deve ser recomendada na grávida sem patologia tiroideia. A mulher em idade fértil e com doença conhecida da tiróide deve consultar o seu médico sobre este assunto antes de engravidar.